terça-feira, 24 de novembro de 2015

Como construir uma cultura de diálogo?

No dia 11 de novembro a Casa Escola participou do encontro "Como construir uma cultura de diálogo? Reflexões sobre comunidade, construções coletivas, mediações e Justiça Restaurativa." Aconteceu no Museu do Ingá em Niterói. "Seminário conspirado por integrantes da Faculdade de Direito da UFF, do Programa de Pós-graduação em Sociologia e Direito (PPGSD/UFF) e da empresa Social Contemporâneo com o objetivo de promover reflexões sobre a urgência no engajamento de uma cultura de diálogo, no desenvolvimento de formas não violentas e mais sustentáveis para abordagem de conflitos, inspirando um novo olhar sobre a atual política de mediação nos campo do Direito". 

O evento teve uma proposta bem interessante de fazer a discussão. Os convidados e participantes iniciavam o diálogo a partir de perguntas geradoras, em estruturas de “aquários” (com as pessoas organizadas em círculo). O objetivo era criar um espaço mais horizontal onde todas as experiências relacionadas a mediação de conflitos e transformação nas relações  pudessem sem trazidas e ampliadas e não apenas fazer apresentações seguidas de debate.

Essa metodologia promoveu um encontro mais concreto onde cada participante poderia se sentar no circulo central e trazer sua experiência. Muitos convidados interessantes! Muitas conversas intensas!

Mais do que respostas esse encontro nos trouxe perguntas e reflexões:
Em que momento nós nos desconectamos da natureza?
O que fazer quando a nossa naturalidade (se sentir homem ou mulher, por exemplo) vai contra o que é a norma?
Diálogo é diferente de discussão?
Mediação pode virar procedimento padrão nas instituições? Ou mediação é um acordo comunitário dentro da prática de diálogo?
Até quando os pedagogos permanecerão nesse silêncio obsceno?
E nós? Não somos o sistema?
O que está por traz da agressividade de uma fala?
O que já existe de resposta aos conflitos de um determinado ambiente? Quais funcionam e quais não funcionam?
Qual o contexto que estamos vivendo/trabalhando? É preciso curar a cegueira sistêmica que não nos deixa ver de onde as coisas brotam.

José Pacheco insistiu na afirmação de que a aula não ensina nada e que a escola brasileira tem a síndrome do pensamento único (onde nada pode mudar porque sempre foram dessa maneira) e a síndrome do vira-lata (onde o que é de fora, como modelos e autores, valem mais). Acredita que o mais importante é reunirmos nossas insatisfações relacionadas ao sistema escolar e coletivamente enfrenta-las. Tomar uma escola e modificá-la em vez de tirar os filhos da escola num trabalho solitário. Sente-se desmotivado, pois não vê nenhuma modificação concreta após seus encontros. Fica chocado com a quantidade de crianças infelizes e adolescentes se matando dentro da escola. 

Dominic Barter falou sobre a necessidade de aguentarmos o desconforto do que nos angustia em vez de colocar uma pergunta esperando um resposta salvadora. Muitas vezes quando perguntamos o "como"  delegamos o poder ao outro de dizer o que precisamos fazer. Também é necessário quebrar o silêncio individual, apresentar nossos medos coletivamente e ver o que surge a partir disso. E se tivéssemos coragem de falar : "Tirei o meu filho da escola". "Obrigo minha filha ir para a escola todos os dias". " Sou pedagoga e não tenho coragem de trabalhar na escola pública?"  "O que posso oferecer para o meu filho além da sala de aula?". Colocar nossas perguntas internas para fora permite que mostremos nosso problema para o mundo.
Relacionado ao diálogo ele colocou que é uma conversa entre iguais onde se desconhece o fim. Não temos o poder estrutural sobre a outra pessoa que estamos dialogando. Mas o que acontece geralmente é que entramos numa conversa já com nossos argumentos construídos e querendo convencer o outro do quanto estamos certos. Já temos o final da conversa fechado em nossa cabeça.

Seguindo essa linha, Guto Gutierrez traz a escuta, o sentido e a confiança como estrutura para o diálogo. Não precisamos provar nossa verdade e sim buscar a verdade que existe ente uma pessoa/ideia e outra. A qualidade do pensamento afeta a nossa realidade. Como criar uma conexão para que o outro escute? Uma boa escuta afeta a qualidade do pensamento de quem fala também.

Nas conversas foi colocado também que a perspectiva que gerou/compartilhou um problema não é a mesma perspectiva que vai criar a solução.

Muita informação, muitos desafios, mas o mais importante é poder registrar essas perguntas/reflexões e poder visita-las observando o que vai mudando no nosso cotidiano. Muitas pessoas engajadas em construir uma outra maneira dialogar. Para nós da Casa Escola esse tema é muito importante, pois cotidianamente estamos nos relacionando com as crianças e suas famílias e sentimos muita falta em ter um espaço para cuidar de nós adultos, de nossa escuta e da nossa possibilidade de dialogarmos de maneira sincera e produtiva. Esse encontro apresentou novas perspectivas, agora precisamos aprofundar...

Além dos convidados citados ainda tivemos:
Julio Mafra - psicanalista membro da Escola Letra Freudiana
Sissi Mazzetti  - investiga e trabalha com práticas que promovem o diálogo
Pedro Strozenberg - atua na área de Mediação Comunitária e Segurança Pública.
Cid Alledi - professor de disciplinas ligadas à ética nos negócios, diálogo, governança organizacional, responsabilidade social e sustentabilidade
Dany Garza - Consultora de sustentabilidade e fundadora da ONG Sustentarte,desenvolvendo programas de educação para a Sustentabilidade.




Paquetá

No final de outubro combinamos nosso passeio especial: Paquetá.
Uma ilha no Rio de Janeiro com um clima bem tranquilo, afinal não tem carros passando por suas ruas de terra nem buzinando enlouquecidos para avançar sinais.

Um alívio para os ouvidos e corações tão embotados de cidade grande. Lá conseguimos relaxar, ouvir os passarinhos, abraçar um Baobá, andar de charrete,  ficar simplesmente contemplando as árvores e sentindo a brisa. Um privilégio.

Por isso levamos as crianças para experimentar esse outro ambiente.  E elas aproveitaram cada pedacinho do lugar. Como sempre.

O início já foi uma aventura diferente, pois nos encontramos todos pela manhã (diferente do nosso horário habitual) na estação das barcas da Praça XV. Correria, despedidas dos pais, certificação de que todas as mochilas estavam indo, risadas. Entramos na barca nova, super aconchegante e boa pra ver a paisagem. Apenas um janelão de vidro separava as crianças do mar. Elas ficaram ali olhando a espuma, observando a paisagem que se afastava e a outra que se aproximava, vendo os barcos, dando tchau para os pescadores. Falando sem parar iam construindo seus trajetos. Quando passamos em baixo da ponte Rio-Niterói foi uma alegria de gritos. "Uau! Como é grande!", " Tem ônibus lá em cima." Mil exclamações. Como a barca é nova e o trajeto está mais rápido,  quando menos esperamos já estávamos lá.

Fomos andando até uma pracinha na frente do mar, cheia de árvores e silêncios. No caminho cada criança foi no seu tempo, correndo em dupla, parando sozinha para contemplar um bicho ou pegar um flor, andando de mãos dadas entre elas ou com algum adulto. O percurso teve um tempo longo e seguro. Não precisamos em nenhum momento impedi-las de fazer algo. A rua é o espaço seguro de Paquetá.

Brincamos, subimos em árvores, fizemos "trilhas", descobrimos túneis, conhecemos cavalos e ganhamos cheiros deles, descobrimos túneis de verdade, sentamos para contemplar o mar, conversamos, andamos de charrete, almoçamos na pracinha, jogamos pedrinhas no mar, brincamos de castelo no mirante do parque...

Teve choro também. Soninho chegando, implicâncias por conta de um papel especial, espinhos nos pés, até dor de ouvido e correria pra achar um analgésico teve, mas tudo isso faz parte de estar no mundo. Teve muito companheirismo entre eles. Ajuda pra dar comida, pra fazer a trilha do parque, pra fazer entender algum combinado, pra acolher a dor.

Uma tarde ampla, mas a barca tinha hora e precisamos interromper a magia pra voltar pra casa. Todos exaustos e com as bochechas vermelhas.

A caminhada até as barcas foi longa porque foi lenta... Buscando sombra e flores chegamos. Achamos que eles iam dormir na volta, mas que nada, voltaram falando pelos cotovelos e felizes da vida comendo biscoitos.

Esperamos que eles guardem essa sensação de liberdade e não aceitem nunca viver sem ela.
Esse passeio só foi possível porque, além da educadora, mais três pais/mães se disponibilizaram a concretizá-lo.
Essa Casa Escol só é possível porque somos famílias corajosas (pra não dizer loucas) que acreditam e mudam toda sua rotina em cima da hora pra acolher nossas programações malucas e gostosas.
Gracias a la vida!

 








terça-feira, 3 de novembro de 2015

A escola não pode ser maior que a vida

No dia 24 de outubro a Casa Escola participou de uma aula aberta promovida pela  UNIRIO. O Curso de Especialização em Docência na Educação Infantil (Cedei), em parceria com o Fórum Permanente da Educação Infantil do Rio de Janeiro (Fpei-RJ), promoveu essa aula  com o tema: Infâncias Brasileiras do campo, da cidade, da floresta: quais projetos de educação infantil, quais espaços, quais pedagogias?  O evento aconteceu no Memorial Getúlio Vargas.

Os convidados foram: Peterson Rigato da Silva, diretor de creche e pré-escola da rede Municipal de Educação Infantil de Piracicaba;  Márcia Ramos, do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) e Léa Tiriba, da UNIRIO e da Fpei-RJ.

Essa aula/encontro foi muito potente, pois nos colocou diante de práticas distintas, que apesar de acontecerem em contextos diferentes do nosso nos é muito familiar, pois fala do desejo de não repetir um modelo no qual não nos identificamos.

Peterson nos mostra sua experiência em deixar as crianças mais livres em um ambiente preparado para elas. Um espaço aberto onde elas podem brincar com terra, ficar só de calcinha ou cueca e se lambuzar na lama, na tinta e na luz do dia. Um contato com o ambiente fora da sala de aula, apesar de ser uma creche convencional.

Marcia Ramos nos tocou com sua força e certeza ao afirmar que a escola que temos não é a escola que o MST precisa/quer. Uma escola que não aceitou a matrícula das crianças que estavam no assentamento por não terem endereço fixo já exclui logo de início tirando todas as chances daquelas crianças estarem na escola. Todas as chances?
Marcia mostrou que não, pois foi através dessa atitude que o MST refletiu sobre que escola eles queriam. 
Na escola do MST o estudo e trabalho caminham juntos. As crianças estão o tempo todo conectadas com a terra, com a luta, com a transformação social, logo a escola fala disso o tempo todo.
A Pedagogia do MST se pauta em três eixos: A escola dentro da realidade do Movimento (" A Escola não pode ser maior que o movimento"); O viés contra hegemônico (fazendo a luta por escola, por terra e por dignidade) e a aproximação com outros movimentos sociais (parceira com os Pioneiros de Cuba)
Eles tem três referências no processo da luta pela educação das crianças: Jornada dos Sem Terrinha; Ciranda Infantil e a Luta pela Educação Infantil nas áreas de assentamento e acampamento.
A infância no MST é pensada e discutida a partir da sua realidade, da luta pela terra, da negação da educação capitalista, das dimensões de uma infância que não está separada das relações sociais, da luta por escola e condições de moradia.

Marcia falou várias vezes: "Queremos escolas sim, mas não essa que está aí!"

A professora Lea Tiriba apresentou parte de sua pesquisa numa aldeia indígena brasileira. O mais interessante de sua apresentação foi ver que tem muita semelhança com a prática do MST, que é não aceitar um modelo universal para um território tão específico. Os indígenas precisam de creches, mas não a creche que foi criada para atender o operário. Eles precisam de um espaço que agregue seu território e sua cultura. Seus rios, estradas de terras e noites com estrelas precisam estar contemplados no dia a dia das crianças.
Ela reflete sobre a necessidade de entendermos que o paradigma não é universal. Que apesar da colonização cotidiana e atual precisamos "buscar o que está submerso, o que sobreviveu e não foi subordinado e escapou à lógica objetivista hegemônica."

As comunidades educativas indígenas, onde os adultos não usam da hierarquia geracional para impor suas regras, onde as educadoras ouvem o ritmo do menino que quer pular no rio, onde a criança não é apresentada aos limites através da palavra dura e sim através de contos, lendas e histórias da sua rede familiar, essas comunidades educativas não podem ser substituídas por espaços escolares hegemônicos e padronizados. 

Lea, assim como Marcia, falou de uma experiência rica e possível, de uma realidade que era para ser conhecida por todos os brasileiros, pois nosso território é extenso e com ricas experiências. 

Não precisamos ficar limitados a aprender pedagogia de um único ponto de vista. Poderíamos ter em nossos cursos uma cadeira de educação indígena, educação no campo e mil e uma possibilidades. Cada realidade grita por uma escola que respeite seu contexto, sua história. O aprendizado só faz sentido quando está dentro da vida de cada um. As crianças tem muita coisa para nos ensinar, os rios, os anciões, as árvores, os rituais, o tempo... podemos aprender muito com o que nos cerca. Mas como diz Lea, só conseguiremos isso quando "superarmos nossa obsessão pelo controle". 

Ficamos pensando muito em dois pontos: como não ser um adulto obcecado pelo poder e impor nosso lógica cotidianamente na rotina das crianças? Como fazer a escola e a vida caminharem juntas? A escola não pode ser maior que a vida, principalmente maior que a vida das crianças, quem sua primeira infância são incontroláveis na busca do novo, da pesquisa, da alegria. 
Esse é nosso desafio. 

Obrigada a essas duas mulheres fortes e corajosas que ampliaram nosso entendimento contando um pouco de suas trajetórias.




quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Casarão dos Prazeres, muito prazer!

Esse mês estamos com o visitador solto.  Semana passada fomos passar a tarde no Casarão dos Prazeres, um espaço cultural no morro dos Prazeres em Santa Teresa.

Infelizmente a região não anda nada segura ultimamente. Muito tiroteio aconteceu nas semanas anteriores e as crianças, que fazem atividades no Casarão e da creche ao lado, já ficaram algumas vezes sem poder sair, acuadas pelas balas durante o dia.





 

 Nossa cidade não tão mais maravilhosa assim. Quem vive aqui sabe bem as dificuldades para acessar alguns locais e a insegurança incessante que nos rodeia. Mesmo assim, aproveitamos uma "trégua" e fomos levar as crianças da Casa Escola para conviver um pouco com as crianças que passam a tarde lá desenvolvendo atividades no contra turno escolar.

Um casarão! Com janelas enormes, pé direito com muitos metros, chão de tábua corrida, escadas de madeiras e varanda ao redor de toda a construção. E a vista em 360 graus é: Maracanã, Ponte Rio-Niterói, Central do Brasil, Pão de Açúcar, Cristo Redentor e Morro dos Prazeres, Fallet e outras  comunidades próximas. A diversidade da cidade nos toma os olhos sem pedir licença. Nossas pequeninas crianças de repente estavam nesse cenário. Muito azul em torno delas. Céu sem nuvens. Casarão sem limitação.

A equipe de educadoras que realiza e coordena as atividades nos receberam muito bem. Entramos e ficamos ali no grande salão ouvindo música e rolando no chão. Sem prescrições foram nos recebendo e observando nossa chegada. Nada de imposições de regras ou formalidades exageradas. Tudo isso combinou muito bem com a curiosidade das crianças em entender a maquete do Casarão que elas podiam pegar e alegria em poder subir e descer as escadas. Sala de dança com piano, sala com acolchoado no chão e espelho, biblioteca com uma acervo ótimo, aula de música e dança. Tudo ali disponível para elas também.

Ficamos muito a vontade transitando nesses espaços conforme o interesse de cada uma. Fizeram um pouco de aula de música, acompanhando um coral de meninas entre 5 e 9 anos aproximadamente.  As crianças da Casa Escola viraram xodó de algumas meninas que queriam saber da onde éramos, quem era mãe de quem, qual  o nome de cada uma e mil perguntas engraçadas. Sempre tinha alguém interessado em nós. Uma receptividade muito gostosa.




A infância tem códigos muito simples de comunicação e afetos. Com um simples olhar ou um aperto de mão as relações parecem que sempre estiveram ali. As crianças do projeto nos acolheram com uma afeição muito sincera. Nos lembrou as práticas de vizinhança do subúrbio, das casas próximas, das comunidades, como essa que elas estão inseridas.

Pode faltar segurança e certeza de um dia tranquilo pela frente, mas não falta carinho e hospitalidade nesses espaços. Não falta generosidade pra ajudar a levar ao banheiro, pra dar informação que nem pedimos ou para compartilhar o lanche. As crianças são curiosas e amáveis demais.

As crianças da Casa Escola experimentaram, através desse deslocamento de território, um novo espaço físico, uma nova relação, outras cores de pele, outras texturas, outras aparências. Mas não se deram conta racionalmente de nada. O que queriam era aproveitar aquela energia, o teclado, a música em latim, a aula de ballet, o mato, a amarelinha enorme pintada no chão, o lanche de club social e guara vita, os livros desconhecidos, o olhar de uma educadora acolhendo sua chegada. Elas absorveram com os poros as diferenças do ambiente. Pra elas tudo é novidade e tudo é bom. Os olhos delas vão longe.

Ficamos felizes em ultrapassar essa fronteira sutil e tensa imposta entre o Morro  do Prazeres e o bairro de Santa Teresa. As crianças não percebem nada disso. Não sabem dessa relação que é fracionada pelo território, mas que poderia ser inteira pelos seus desejos. O encontro delas é superior aos limites impostos.


sábado, 24 de outubro de 2015

Uma tarde no quintal. Casa Escola vai ao Tear.


Uma tarde num quintal é um momento de muito prazer, leveza e alegria. Sendo assim, lá fomos nós numa caravana com bebês e crianças rumo à Tijuca, usufruir todas as delícias que o quintal do Tear tinha pra nos proporcionar.


A chegada foi uma delícia! Ficamos ali na varanda, esperando o grupo todo chegar. Nesse momento o querido "Intrometido", um  brincante/palhaço/educador/conversador, se encontrava com as crianças respondendo às suas curiosidades sobre o espaço e objetos.

Que casa era aquela? E aquele bicho no canto? Ah... uma carranca! Depois viram o São Francisco... e mil perguntas rolando. Apresentações feitas fomos adentrar o portão mágico. Que engraçado! Música, rebolado e mil palavras para fazer o portão abrir. E não é que deu certo? Pronto! Todos dentro e vários olhares e vozes nos esperando com canções e brincadeiras.

Começou uma dança de roda. Músicas conhecidas ao violão e palmas. Umas crianças já entraram no clima outras precisaram de um tempo maior pra se aproximar, outras só querem olhar... e  como respeitamos o tempo de cada um aos pouquinhos elas foram se integrando. Os bebês transitando e observando aquela magia inesperada. Uma surpresa fazendo a tarde deles totalmente diferente.

Depois dessa recepção fomos convidados a conhecer o quintal de fato, com suas árvores, horta, tartaruga, gongolos e abelhas. Quanta novidade! Silêncio para achar a tartaruga, senão ela se esconde. E olhar as abelhas, pode? Pode! Abelha brasileira sem ferrão! Chão molinho, buracos na terra, galhos, horta para regar e comer. Conhecimento colocando a mão na terra e cheiros no nariz.

Consideramos o quintal de uma riqueza ímpar e conhecendo nossos pequenos como conhecemos sabemos que se deixássemos eles ficariam a tarde inteira nesse pedacinho de chão cercado de vida por todos os lados.
A hora do lanche foi uma loucura! Elas estavam brincando de regar a horta e fizemos uma pausa pra comida. Uau! Estavam muito eufóricos com o espaço, com a música e com os educadores da casa. Tiraram a roupa, começaram a correr e gritar. Comeram pouco. Queriam era o quintal, correr, ficar descalças na terra.

Mil coisas ainda pra viver: tinha cama de gato feita com barbante, bacias com água de cheiro, construção de tapetes de folhas, massinha e contação de histórias no Pé de Livro montado especialmente para nós.

Uma delícia poder estar num ambiente como essa casa. Poder ter um violão acompanhado os caminhos, música para as passagens (quando uma criança estava descendo do banheiro e passou pelo portãozinho que leva para o quintal falou "pra passar aqui tem que cantar uma musiquinha`), sorriso e mão amiga dos educadores em cada momento. 

As crianças ficaram muito a vontade com todos os educadores e em cada espaço do quintal.  Queremos muito fazer mais encontros, frequentar mais essa casa, contribuir de alguma maneira para construir uma parceria com o que temos de concreto.

Acreditamos que a natureza e o olhar amoroso de um adulto é uma porta que possibilita um auto conhecimento e um conhecimento do mundo imprenscidível!

Ficamos muito felizes quando ao final da tarde uma das educadoras sugeriu que escrevessemos nossas percepções sobre esse momento e interação. Sim! É muito importante criarmos laços e parcerias a partir da conversa sincera e avaliação de nossas estratégias conjuntas. Agradecemos  de coração o acolhimento e a escuta de cada um dos educadores que proporcionaram uma tarde inesquecível para todos esses pequenos corações da Casa Escola!

E que venham novos encontros! 

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Casa Escola e Creche Aberta

No dia 08 de outubro a Casa Escola participou da iniciativa Creche Aberta, uma articulação de atividades da semana das criança, na Creche Municipal Brincadeira de Criança, Morro da Mineira, Catumbi. 



O objetivo da inciativa é aproximar a comunidade e projetos que se interessem  pelo universo infantil e que possam disponibilizar um tempo para as crianças apresentando uma atividade durante um período do dia. Uma oportunidade de trocarmos experiências, ampliarmos nossa rede e conhecer uma realidade bem distinta da nossa.

Para o Coletivo foi uma experiência muito rica que trouxe muitas reflexões. Inicialmente queríamos levar as crianças da Casa Escola para passar a tarde na creche também, mas foi colocado que esse primeiro contato seria mais interessante que estivéssemos cem por cento disponíveis para as crianças da creche. Realmente isso fez toda a diferença, pois pudemos estar dedicados a elas para fazer esse primeiro contato e uma aproximação tranquila.

Nossa intenção foi conhecer as crianças e apresentar algum material que elas pudessem manipular e trocar conosco. Levamos manjericão, hortelã, alecrim, sálvia,canela, sementes, cola, papel craft, óleos essenciais com vários cheirinhos deliciosos.

Chegamos na sala e encontramos uma média de 18 a 20 crianças próximas aos 4 anos, sentadas finalizavam seu lanchinho pós sono da tarde. Ficaram tímidas, mas conforme nos apresentamos e fomos colocando as ervas e temperos elas se aproximaram e rapidamente se interessaram pela proposta. Algumas colocaram galhos de alecrim na orelha, outras comeram manjericão e juntas foram nos acolhendo e mostrando seus tesouros e segredinhos.

A sensação foi poder sentir o cheiro do alecrim na folha e depois no óleo essencial. Molhávamos um algodão e elas cheiravam. Umas gostavam, outras não, mas todas queriam colocar na mochila pra levar pra casa para mostrar para os pais. Depois começamos a colar no papel. Colar o papel no chão com fita e colar as folhas no papel foi uma atração a parte. As coisas mais simples para elas estavam ótimas. Criaram florestas com as folhas e terra com a canela, além das embalagens de isopor que viraram casinhas na colagem. Dançamos ao som da gaita, fizemos uma roda que virou uma cobra e nos despedimos. Muita alegria e gratidão nos olhares das pequenas crianças.




Na segunda turma fizemos o mesmo processo, mas ainda tivemos uma semente que solta uma florzinha que voa. Foi uma alegria. Sopramos as flores e de repente na sala tinha um monte de bracinho pra cima tentando alcançar  aquela penugem voando. Gritos e gargalhadas.

O cabelo liso de uma das mães do Coletivo foi o frisson nas duas turmas que visitamos. Foi só ela sentar no chão e as meninas começaram a passar a mão em seu cabelo, alisando e fazendo penteados.

As professoras e equipe pedagógica nos receberam com muito carinho e nos deixaram muito a vontade para propor as atividades. O encontro foi importante para nos conhecermos e mostrarmos nosso interesse em estar dentro dessa rede institucionalizada também. Nossas práticas se convergem no momento em que estamos nos dedicando às crianças e acreditamos que podemos, a partir disso, criar um diálogo e aprender com esse outro contexto.

Esperamos continuar esse encontro, conhecer as outras turmas e contribuir com nossas habilidades e carinho para as ações de troca que a creche propõe.
Depois de uma semana recebemos o retorno de Camila Fernandes, que nos colocou em contato com a direção da creche, dizendo que a equipe gostou muito de nossa participação e que as crianças também. Oba! Seguimos nos aproximando.
Semana que vem tem mais.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Casa Escola no Círculo da Infância - TEAR

circulo infancia dumont4A Casa Escola participou do Círculo da Infância 2015, nos dia 25 e 26 de setembro, promovido pelo Instituto Tear.
(http://institutotear.org.br/)

O Seminário contou com a participação da querida e inspiradora Lydia Hortelio que nos convidou a resgatar o "minino" que existe em  cada um de nós. A cultura da infância é a cultura da brincadeira, da alegria que deve estar conosco a vida inteira. Lydia nos contou um pouco da sua experiência com cultura popular e "mininos". Sua jovialidade aos 83 anos é contagiante, sua musicalidade e espontaneidade nos toca quando fala de sua jornada. Nesse encontro chamou nossa atenção para sua esperança, pois acredita que o sistema educacional como está não pode piorar. É um momento de virada e precisamos nos dar conta disso. Precisamos de uma pedagogia que abrace, precisamos rir mais, encontrar a alegria. Acredita que estamos desviados na rota e que precisamos achar o rumo certo. Precisamos entender que o Brasil é uma país da festa, mas uma festa que faça sentido, que diga sobre o seu povo e não um entretenimento fútil. Nas nossas festas estão as nossas raízes e nossa força, nossa ancestralidade negra e indígena.

O encontro também nos apresentou Gandhy Piorski (Ceará) que contou um pouco de sua pesquisa com objetos e sucatas, que viram brinquedos e obras de arte com a criatividade das crianças. Nesse trabalho pode consolidar seu pensamento que a criança deposita sua alma no que faz e no que diz. A brincadeira é muito importante para a criança porque ela brinca com todo o ser. Não dá para fazer uma criança brincar quando ela não quer, por exemplo. É um estado e não uma função.
Conversou sobre a importância da oralidade na infância, pois é uma potencialidade da audição colocar o que ouvimos dentro de nós e fazer reverberar em ações, imaginação e vida. A oralidade é muito mais que informação através das palavras, é herança afetiva, herança de valores. A oralidade exige encontro, comunicação.
Ele afirma também que o educador precisa ter uma coragem etnográfica para aprofundar e conhecer o que se vê na criança. Não dá pra ficar no superficial do encontro.
Acredita que precisamos aprender a ler a natureza e apreender a natureza. Precisamos mudar nossos hábitos e observar o que fazemos mais fácil. Geralmente o que fazemos mais fácil fazemos melhor porque já estamos habituados, acomodados. Precisamos observar isso e procurar outras maneiras de fazer, descobrir novos caminhos. Precisamos brincar. Redescobrir o menino que nos habita sempre.

Entre uma conversa e outra aparecia Vicente Barros com sua voz mansa apresentando uma brincadeira gostosa. Muita roda, contato corporal, ritmo com palmas e pés.



Finalizando a tarde ouvimos muitas histórias do Mestre Roquinho, um ser iluminado que vem de lá, segundo o próprio afirmou, do centro do mundo. Vale do Jequitinhonha. Uma mineirice brejeira que nos fez rir e chorar. Brincou de roda contando histórias e versos das senhorinhas e meninos que foi conhecendo ao longo da estrada. Em cada recanto do Brasil tem uma lembrança, uma cantiga, uma luta, uma aprendizagem. Em cada comunidade e escola aprendeu um pouco mais. Com muito riso e disposição passamos a tarde a girar.
Em sua fala veio uma convocação para que achemos o nosso menino e o façamos brincar.
Ele nos contou que em uma de suas viagens para o Amazonas passou por uma situação bem inusitada. Entediado de estar há 3 dias no barco descendo o rio na sua imensidão, sem conseguir dormir nas redes eternamente estonteantes foi até a proa da embarcação e resolveu tirar fotos do dia amanhecendo. Lá pelas tantas observa que estavam passando próximo a uma comunidade e percebeu um ponto na água. Foi olhando mais detalhadamente e viu que era um pequeno barco. Com mais atenção reparou que eram dois meninos entre os 8 e 10 anos. Pensou o quanto era perigoso aquelas crianças estarem naquele barco tão pequeno num rio que chegava a ter 14km de distância entre suas margens. Mas o mais estonteante foi observar que os meninos estavam fazendo gestos com os braços, como se estivessem chamando: "vem,vem". Ele achou aquilo estranho, mas era real. Os meninos seguiam acenando com os braços, "vem, vem".  E diante disso reparou que o barqueiro parecia virar o barco e fazer surgir três pequenas ondinhas naquela enormidade de rio. Os meninos então paravam quietinhos no barco e ficavam sentindo aquela marola balançar sua pequena embarcação. Nem levantavam pra fazer bagunça ou gritavam. Não. Apenas se concentravam e sentiam o balanço das ondinhas. A embarcação grande segue viagem, Roquinho continua tirando as fotos, até que na próxima comunidade ele vê a mesma cena: meninos em pequenas canoas, remando na direção da embarcação gigante e acenando com os braços o "vem, vem". O barqueiro chega pra perto e faz a mágica das três ondinhas. Depois de várias ele resolveu conversar com o barqueiro. Perguntou se ele estava fazendo aquilo de propósito, afinal a embarcação carregava mais de cem pessoas, toneladas de alimentos e os meninos eram muito pequenos pra estar sozinhos naquela situação. Para o seu espanto e alegria, o barqueiro respondeu que sim, afinal tinha sido menino nas margens daquele rio e sabia exatamente o valor daquelas três ondinhas. E afirmou que não eram todos os barqueiros que faziam isso não, mas ele não conseguia deixar de ouvir o chamado dos meninos: "vem, vem". Tinha sido menino que nem eles.
Roquinho com sua reflexão nos diz que nós enquanto, professores e educadores temos um monte de menino olhando pra gente e dizendo: "vem, vem..." E nós estamos ouvindo esses meninos? Precisamos antes de mais nada lembrar do nosso menino. Quando lembrarmos dos nossos sonhos, desejos e brincadeiras da infância vamos entender melhor os nossos meninos.

As palavras  mais faladas nesse encontro foram: "minino", brincar e natureza.
"minino" porque no interior do Brasil e no nordeste criança é "minino". Brincar porque é assim que  a criança se desenvolve. E natureza porque é ela que nos dá os instrumentos para fazer nossos meninos brincarem.

Viva a infância e a natureza!
Obrigada TEAR.