domingo, 27 de setembro de 2015

NEGA MALUCA x NEGRA CONSCIENTE


No último dia 20, nós do Coletivo Casa Escola promovemos uma feijoada no Centro Cultural Laurinda Santos Lobo em Santa Teresa. O objetivo desse encontro foi arrecadar recursos para que possamos melhorar o espaço que utilizamos com as crianças.
Mesmo tendo esse objetivo como propulsor da atividade, nós sentimos que os resultados vão para além disso. Desde o planejamento até a execução muitas coisas acontecem. Reuniões para pensar as estratégias de divulgação, divisão em grupos de trabalho para a execução das tarefas, trabalho braçal e muita alegria. Um percurso que permite que nos conheçamos melhor. Aos poucos vai dando um gosto bom de reconhecimento ao vermos que estamos realizando um desejo comum.

Nesse evento podemos avaliar que, mais do que o dinheiro arrecadado, o que conta é a possibilidade de trabalhar em grupo, de discutir questões e tomar decisões juntos. Um trabalho danado, mas que ao ser realizado nos fortalece e nos aponta novas direções para concretizar nosso projeto.
Na feijoada contamos com a parceria de um grupo de forró que já havia nos acolhido, na festa junina nesse mesmo ano, enchendo de boas canções e alegria o salão e colocando o povo todo pra dançar. Mas dessa vez aconteceu algo que não estava combinado mudando todo o tom da festa. No meio da apresentação musical foi feita uma performance de uma “nega maluca”. Uma mulher vestida com roupas coloridas, pele coberta de meias e camisa preta, rosto pintado de preto e uma peruca “black” entrou pelo salão dançando.

Pausa. Silêncio. Murmuros. Olhares buscando um sentido para o que estava acontecendo.

Uma performance objetificando a mulher negra, colocando-a num lugar de ridicularização e estereótipos. Um saculejo nervoso totalmente desconectado do ambiente que estava sendo construído até então. Incômodo para a maioria das pessoas.

O que fazer quando vemos personificado diante de nós a discriminação racial? O que fazer quando sentimos que a piada de uns só é possível porque rebaixa outros? O que fazer quando educamos as crianças para realmente vivenciarem a sua cultura e o respeito pelo seu povo e diante delas se desenha uma cena “artística” onde a matriz negra dessa mesma cultura é subjugada?

Mil sentimentos batendo no mesmo momento e perguntas passando de um olhar para o outro. Finalmente, rolou entre nós um olhar que dizia: É hora de parar. Isso não pode continuar. Não aqui. Não conosco a frente dessa situação. Nossos filhos estão vendo isso. Pessoas estão sendo magoadas.

Poucos minutos passaram até que uma das mães do Coletivo, Aline Valentim, mulher negra, militante e artista se colocou em nome do grupo e de todas as mulheres negras para finalizar aquele despropósito. Claro que esse lugar de dizer não a uma cena dessa e nomear como racismo suas representações não é um lugar fácil. Tem que ter um corpo de enfrentamento, um corpo que é construído ao logo da vida com seus encontros e afetações, um corpo que se indigna. Um corpo alimentado de política, teoria e arte.

Racismo não é apenas a vontade de dizimar o povo negro fisicamente. Racismo é subjugar, é objetificar, é oprimir emocionalmente, é querer embranquecer o povo negro. Mil sutilezas que encontramos cotidianamente no Brasil. Então falar para uma pessoa que a atitude dela, que era pra ser apenas uma comédia é racismo, não é fácil.
Muitas pessoas acham que é um exagero tomar essa posição, consideram que o racismo acabou e que precisamos aceitar essas cenas. Afinal, é engraçado. (Pra quem?)

A cordialidade do povo brasileiro impede ações afirmativas contra o racismo. Escondemos nossos incômodos para não perdermos a fama de povo alegre com sua miscigenação bem resolvida. E isso é um projeto de nação que está sendo desenvolvido desde o “descobrimento” do nosso país.

Nosso objetivo não foi destratar a banda de forró ou impossibilitar o diálogo, apenas precisávamos marcar nossa posição. E nossa posição é: não vamos nos calar diante das discriminações e injustiças.

Construímos arduamente todos os dias do nosso projeto. Cada família que entra, cada atividade que propomos, cada dia é pensado com muita atenção e respeito a todos os envolvidos. Entendemos que esse espaço é um espaço de auto educação, onde cada adulto está se trabalhando pois é a referência para cada uma das crianças.

Como ver essa cena, abaixar a cabeça e continuar dizendo para nossos filhos que acreditamos na potência de cada indivíduo independente da sua cor? Como não ampliar o debate quando uma mulher negra, militante, 70 anos, olha e fala para a “produtora” da performance: “Tá tudo errado. Isso tá errado. Isso magoa a gente, machuca.”

O povo negro não precisa de tutela, pode ele mesmo falar em primeira pessoa e dizer o que não quer mais. Não vamos aceitar o silenciamento, o olhar de deixa disso, a cordialidade que prefere o riso ao invés do grito.

Nega maluca não é folclore. Nega maluca é uma invenção do homem branco para humilhar a mulher negra, para ridicularizar. A cultura negra tem orixás, rainhas, deusas, mães, guerreiras, divindades. Tem música, tem tambor, tem alegria, tem samba, tem chão de terra batida com pés descalços saudando a beleza do mundo e a ancestralidade. A cultura negra tem lindas celebrações exaltando a natureza. A cultura negra carrega com ela, através de muita resistência, valores que estamos perdendo.
E isso é o que precisamos exaltar, é para isso que precisamos bater palmas.

Para aqueles que acharam que é preciso ter calma fica a frase de Brecht para que possamos refletir: "Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem".

Lembrem da mulher negra de 70 anos que se sentiu magoada. Tem coisa que magoa, que machuca e que pode fazer com que pessoas passem a vida inteira tentando negar suas origens, se distanciando de sua cultura para embranquecer sua identidade, por não se sentirem representadas.

Queremos ampliar o debate, queremos aprender mais com situações como essa que nos tira da teoria e nos põe no enfrentamento. Essa situação permitiu que pessoas convidadas pudessem expressar seu incômodo, que grupos de conversa se formassem durante toda a festa e que nós do Coletivo entrássemos em contato com nossas diferenças e semelhanças. Somos um grupo diverso, com diferentes experiências e realidades, mas temos um laço comum que nos une: acreditar que construir um mundo diferente para as crianças está em nossos mãos também.

Obrigada a cada um que se posicionou durante o encontro e que segue o debate em suas redes.



domingo, 5 de julho de 2015

Oficina de Boizinho!


Adultos e crianças reunidos pra construir um pedacinho da cultura brasileira no nosso espaço-tempo da atualidade. Resultado - 8 boizinhos lindos e coloridos rodopiando no nosso terraço e que venham outros!












Mas essa história começou antes!




Tudo começou com Pai Francisco e Mãe Catirina...
Personagens da lenda do Boi Bumbá, ou Bumba meu Boi, que começamos a ler nos últimos dois meses com as crianças. Lemos uma vez e foi o suficiente pra elas se apaixonarem pelo enredo e ficarem curiosas para entender cada detalhe. A partir daí começou a ser leitura obrigatória. Quase todos os dias alguém chega com o livro, cutuca nossas pernas e pede pra contarmos a lenda da mulher que queria comer língua de boi. Uau!

A Mãe Catirina está grávida e o Pai Francisco tem a missão de saciar um desejo seu que é o de comer a língua de um boi! E  Mãe Catirina não quer qualquer língua, quer a língua do boi mais apreciado de seu dono, já que os dois são escravos de uma fazenda às margens do Rio São Francisco em Pernambuco. Um boi que veio do Egito. Vixi! Vai dar confusão isso.

Pronto! Começaram as perguntas. As crianças querem saber quem come língua do boi, onde é o Egito, por que Mãe Catirina está com desejo e mil coisas.  A prosa segue até que alguém quer saber o que  Pai Francisco vai fazer agora. Voltamos pro livro e não é que  Pai Francisco pega o boi, mata e dá a língua pra Mãe Catirina cozinhar e comer. As outras partes distribui entre os outros escravos ficando só os ossos, os chifres e rabo. Claro que o dono fica muito brabo quando descobre e os dois são obrigados a fugir da fazenda. Depois de anos, com o filho já crescido, eles voltam pra fazenda pra se desculpar com o dono. O menino muito impressionado com sua história encontra os restos do boi e através de um sopro bem forte no rabo do boi consegue fazê-lo ressuscitar! Ufa! A meninada fica muito feliz nessa hora. Ajudam a soprar o rabo do boi com muita energia e dão risada com o boi colorido que aparece daí. 

Mas a nossa história continua assim -  uma das mães do Coletivo está fazendo um curso sobre cultura popular em SP e nesse curso ela aprende um monte de coisas sobre lendas, danças, brincadeiras, folclore etc. Com sua generosidade compartilha seus afetos e aprendizagens. Como estamos nos meses de festas nordestinas e tudo de bom acontece, ela propôs  fazer uma oficina com o grupo para que construíssemos nossos próprios boizinhos. Topamos!



Munidos de caixas de papelão, suco e leite, tecidos coloridos, fitas, cola e mil detalhes construímos, juntos com nossas pequenas crianças a nossa parte nessa história também. Depois de muitas risadas, e colas espalhadas pelo chão e pelos cabelos, começaram a aparecer as primeiras cores e movimentações. As caixas se transformaram em beleza e movimento. As crianças se aproximavam já seduzidas pelo encantamento. Beleza pura! 
E assim seguimos em nossas pesquisas e realizações.

O Brasil é muito grande e a diversidade do nosso coletivo também. Essa oficina nos possibilitou concretizar uma parte da lenda que as crianças estão apaixonadas e buscando entender mais descobrimos que a essência da lenda que enlaça a sátira, a comédia,  a  tragédia e o drama,  demonstra sempre o contraste entre a fragilidade do homem e a força bruta de um boi.
A história é contada através de cantos e declamações, e os acontecimentos permeiam a vida, morte e ressureição de um boi. O boi é representado com alegorias muito coloridas, coberto por tecidos. Essa festa tem tem origem na cultura européia, africana e indígena e nós queremos seguir com essa mistura trazendo para o nosso coletivo todas as influências que permeiam nossa   ancestralidade







Semana que vem  tem Arraiá das Crianças com encontro de boizinhos! Vem com a gente.





Foi lindo o encontro! Maravilhoso poder transformar material que ia pro lixo em cultura. 



Ótimo ter a presença de amigos que nos acompanham em nossa rotina e que participaram conosco dessa celebração! Que sigamos nos encontrando e construindo uma realidade prazerosa e alegre para as crianças.






Para saber mais sobre a lenda - (http://mundoestranho.abril.com.br/materia/qual-e-a-origem-do-bumbameuboi-e-o-que-ele-representa)

O Boi
Figura mitológica nas mais diversas culturas, o boi era visto por escravos negros e indígenas como companheiro de trabalho, símbolo de força e resistência. É por isso que toda a encenação gira em torno dele. A pessoa que veste a fantasia do animal é chamada de miolo e seus trajes variam bastante de uma festa para outra. Alguns abusam de paetês, miçangas e lantejoulas. Outros preferem bordados com menos brilho e mais cores.
Vaqueiro
Ao lado de caboclos, índios e seres fantásticos como o caipora (figura da mitologia tupi), o vaqueiro é um dos personagens coadjuvantes do bumba-meu-boi, mas consegue impressionar pelo figurino, principalmente o chapéu, sempre enfeitado com longas fitas. No enredo, ele é quem avisa o dono da fazenda da morte do precioso boi.
Dono da fazenda
Também chamado de amo ou patrão, é o senhor de engenho que, proprietário do boi morto, jura vingança contra o casal Catirina e Nego Chico e exige que o animal seja ressuscitado. 
Os músicos
Vários ritmos e instrumentos são utilizados: só no Maranhão há mais de cem grupos folclóricos.Os instrumentos mais comuns, porém, são os de percussão: tambores, pandeirões, matracas (dois pedaços de madeira batidos um contra o outro), maracás (uma espécie de chocalho) e tambor-onça (tipo de cuíca rústica, de som gravíssimo).
Nego Chico e Catirina
Depois do boi, são os personagens principais do auto. Representam um casal de escravos, ou de trabalhadores rurais. A personagem dela costuma ser interpretada por um homem vestido de mulher.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Passeio, Cordel, Chuva e Aventura

No final de maio já começamos a apresentar para as crianças referências de festa junina. Colamos bandeirinhas, ouvimos música de Luiz Gonzaga, cantamos cai cai balão e contamos histórias sobre as festas nordestina em formato de Cordel. Aos pouquinhos e devagar vamos apresentando as mil referências de nossa cultura popular.
Fizemos uma atividade que culminou em um passeio diferente por Santa Teresa.
Começamos apresentando histórias em Cordel criadas pelo cearense, morador de Santa e presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (http://www.ablc.com.br), Sr. Gonçalo Ferreira. Depois fizemos uma atividade de pintura em isopor para carimbar no papel e se transformar em uma capinha de Cordel. 













Invencionices.
Então pensamos em levar as crianças pra conhecer esse senhor tão simpático e hospitaleiro! 

Oba!Passeio!
Nossa tarde começou no bonde do Getulio Damado (http://www.acasa.org.br/autor/getulio-damado), nosso querido artesão que trabalha com sucatas reiventando e reconstruindo brinquedos e objetos, entre eles o Bonde de Santa Teresa. As crianças ficaram brincando no bonde durante bastante tempo e intercalando com a pesquisa da lojinha do Getulio atravessavam a rua e interagiam com moradores e passantes.


Nossa! Mil possibilidades nesse espaço! Tampinhas viram cabeças, latas de sardinha viram malas e tem até um ventilador à manivela. Melhor de tudo é que as crianças podem mexer no que quiserem, com muito carinho e cuidado, claro.


De lá subimos mais um pouco e fomos conhecer o Sr. Gonçalo que recebeu as crianças com muita alegria e atenção, conversando e recitando poesia. Uma alegria. Uma criança já chegou falando que também tinham cordéis e que estavam pendurados na Casa Escola. Rapidamente habitaram o ambiente e começaram a querer ouvir histórias. Saci, Curupira, Vitória Régia e outros personagens que já povoam o cotidiano delas foram rapidamente reconhecidos. 

Ficamos por lá atá a hora do lanche começar a dar sinal na barriguinha delas e fomos até a praça comer canjica! Pic nic com a visita de Grazie e seu filho que conhecemos em outro passeio.

O tempo começou a ficar cinzento e o vento começou a brincar com as folhas. Quando os pingos começaram a cair foi uma festa. Algumas correram para festejar e outras pra se esconder. Corremos na chuva pra espantar o frio, cantamos e nos molhamos pra valer, mas como não estava bom pra todos resolvemos pedir abrigo e corremos até a igreja. Correria, reclamações, risos, gritos. Confusão boa! Trocamos as roupas molhadas, brincamos com brinquedos que o amigo visitante emprestou, comemos biscoitos, cantamos no banheiro e assim o tempo foi se preenchendo até recebermos a ligação de uma das mães que com seu carro estava vindo nos resgatar.

Todos exaustos e felizes. Que venham outras aventuras!

terça-feira, 26 de maio de 2015

Casa Escola na UNI RIO - Aprendizado e reflexão

No dia 16 de Maio o Coletivo Casa Escola participou da abertura da IV Semana de Educação da UNIRIO com o Fórum Fina Flor.
O objetivo do encontro foi promover um debate sobre o modelo educacional vigente abordando suas limitações e reproduções seculares e apresentar propostas de pedagogias libertárias, libertadoras, ecológicas e transgressoras atuais e antigas que subvertam esse modelo. 

Foi um encontro muito potente, pois nele havia  profissionais de educação em diferentes contextos. Tivemos os que questionam o modelo tradicional, mesmo estando dentro dele durante muitos anos, professoras de educação infantil, que estão procurando uma especialização que alimente sua prática cotidiana pautada no respeito a criança e a necessidade de brincar, e pessoas interessadas em educação, que atuam no cotidiano com crianças e que acreditam que a natureza, o contato com a comunidade articulados com a  escuta e observação da criança possam construir uma prática educativa prazerosa.

Muito inspirador e renovador participar das discussões, ouvir as novas práticas e entender que desde que a escola existe há um grupo de pensadores, educadores ou malucos, que acreditam que é possível subverter esse sistema educacional e propor algo que faça sentido para os envolvidos.

Léa Tiriba, coordenadora da Pós Graduação de Educação Infantil, iniciou os trabalhos apresentando o professor José Damiro de Moraes, professor da UNIRIO.  Sua apresentação trouxe pensadores que apostaram na educação Anarquista e  palavras como mutualismo, cooperação e liberdade relacional dispararam na construção de conceitos que deram base para a educação integral. Integral no sentido de privilegiar o todo, a relação do ser com a arte, a natureza, práticas corporais, trabalho e aprendizado a partir da experiência. Os autores que norteiam sua pesquisa são - Willian Godwin, Pierre Joseph Proudhon, Bacunin, Paul Robin, Sebastien Faure, Francisco Ferrer entre outros.

A seguir, Maria Sirley dos Santos - AELAC ( Associação de Educadores da América Latina e Caribe) aprofundou o tema da educação integral com foco nos pensadores da América Latina. Ela mostrou como José Marti (Cuba), Simon Rodrigues (Venezuela), José Carlos Mariategui (Peru) e Paulo Freire foram pensadores/educadores que se debruçaram para disseminar uma educação pautada no sujeito e seu contexto. Tinham como ponto comum a valorização da na unidade entre sentimento, pensamento e ação e a urgência de entender arte, literatura e política como alicerce para o desenvolvimento de um povo instruído, que significa um povo criativo e livre. Todos defendiam a escola pública e gratuita, entendida como o centro da transformação social.

Ambas apresentações trouxeram práticas, em pleno século XIX, pautada na integralidade do sujeito com o ambiente. Escolas que tinham aulas de marcenaria, artes, natação, jogos corporais, construção de hortas pelos alunos, passeios no campo, administração através da auto gestão, formação de trabalhadores, turmas mistas, articulação entre a comunidade e a escola, participação dos alunos nas decisões, enfim, práticas que parecem atuais porque é o que buscamos agora, mas na realidade sempre existiram porque sempre houve um grupo que questionou o modelo imposto.

Finalizando tivemos a professora Catarina Lozinsy que trouxe experiências do Brasil que trabalham acreditando na cooperação entre comunidade e escola, entre pais e professores e entre natureza e tecnologia. Com vídeos e conversa ela apresentou os projetos do Jardim do Joá (RJ),  Tearte (SP), Ancora (SP), Escola Viva (BA),  Tião Rocha (CPCD em diversos estados) entre outros. A ideia foi mostrar que atualmente também existem grupos que discordam do sistema educacional e que apresentam novas formas de viver essa relação entre o sujeito e o conhecimento, entre a criança e o ambiente, entre o ser e o fazer.

Na parte da tarde a roda de conversa sobre novas práticas trouxe o projeto da Urca (Lais), o Cria (Helena), o Coletivo A si fon fon (Caroline), Jardim do Joá (Carolina) e o Coletivo Casa Escola (Geisa) para conversar com professoras de educação infantil. Esse grupo de professoras está em sala de aula de escolas públicas no estado do Rio de Janeiro. As professoras se debatem o tempo todo com as diretrizes educacionais que para elas não fazem sentido, tais como iniciar o processo de alfabetização aos 4 anos,  controlar o tempo que a criança pode correr e brincar, passar folhinhas para cobrir desenhos e letras,  fazer trabalhinhos com resultados iguais e apresentar para a família como se fosse algo único e original, reproduzir datas comemorativas que servem ao consumo e a competição, entre outras. Todas são sutis imposições. 

O mais rico e potente de sentir foi a energia de luta contra o conformismo e a reclamação. Elas estão se especializando porque já não acreditam nesse modelo excludente e limitador e apostam em outras saídas. O curso é uma respiro, uma poesia que inspira e fortalece. 
Várias são da baixada, da zona norte e até mesmo de municípios mais longínquos. Pegam ônibus e atravessam a cidade, depois de uma semana em sala de aula,  para passar o sábado entendendo/construindo que é possível fazer de outra maneira. Que é possível acreditar na criança e em suas demandas, ouvindo e observando seus movimentos, desejos e sonhos. O jardim de infância é o lugar que se cultiva a infância, um lugar para se regar, colocar adubo, preparar o solo, plantar, florescer. Apesar do sistema, das normas e diretrizes quererem deixar o jardim arenoso tem muitas pessoas que não desistem e que todos os dias trazem um pouco de água e disfarçadamente colocam mais uma semente na terra.
Nossas crianças crianças são seres criativos e amorosos. Precisam de amor e um ambiente seguro para florescer. Simples assim.
Essas professoras que estão dentro do sistemão precisam respirar, precisam estar em outras redes, precisam de muita empatia. 

Obrigada Catarina pelo convite. O encontro gerou aprendizado e muitas reflexões. Seguimos nos encontros. 

domingo, 17 de maio de 2015

Amar é mudar a alma de casa

É prezado Manoel de Barros, mudamos mesmo!

Desde junho de 2013 estamos juntos pensando, repensando, praticando, avaliando e modificando nosso projeto para construir um espaço e relações que respeitem a integridade das nossas crianças.
Em 2014 iniciamos os encontros na casa de uma das famílias, que na realidade é um apartamento térreo com uma área externa. Longe de ser o espaço ideal, ele foi adaptado e nos acolheu.


Colocamos tela, subimos móveis, criamos ambientes possíveis de serem montados e remontados e fomos nos adaptando, afinal era o que tínhamos pra começar imediatamente a concretizar nosso sonho e assim foi.

As crianças aproveitaram muito o tempo todo. Correram da sala pra cozinha, da cozinha pra área, da área pra sala, mil vezes! E assim, dando voltas e voltas, passamos 1 ano e 3 meses nesse espaço. As crianças conquistaram os vizinhos, o carteiro, o padeiro e quem mais passasse pela rua e desse um pouco de conversa pra elas. Outras crianças que passavam, vindo ou indo pra escola, erguiam a cabeça na direção do portão e ficavam contemplando com aquele olhar de criança o grupo que estava do lado de dentro. Algumas paravam e ficavam puxando assunto. Queriam brincar também, desenhar no chão com o giz, subir no banco de cimento e saltar, passar pelo túnel colorido, deitar no chão e ficar olhando o avião lá no alto... Mas sempre tinha um adulto apressado pra dizer que não dava tempo.


O tempo passa mesmo. E nosso tempo passou também. Surgiram outras demandas. As crianças começaram a sinalizar que precisavam de um espaço delas, pra terem mais autonomia e liberdade, a família que estava recebendo também precisava de ter sua casa mais privativa e uma nova criança nascia no grupo. Mudanças.

Decidimos ampliar a CasaEscola pra que os pequenos tivessem seus cantinhos de leitura, fantasia, pintura e o que mais surgir e também para agregar um grupo de bebês que fossem companheiros da nossa bebezinha que recém tinha chegado ao grupo.

E agora estamos em doze famílias e treze crianças. Muito amor. Muita alma. Uma casa nova pra mudar.

E assim começamos no mês de maio nossa mudança, nossa chegança e nossa viagem no espaço novo. Um espaço que ainda é na casa de uma das famílias, mas que conseguimos ter um cantinho ótimo reservado para as crianças. Um espaço que é potente e que nos permitirá usar nossa criatividade e maluquices para funcionar lindamente.


Que sejamos todos bem-vindos e que toda nossa potência de amor nos estimule e acolha nessa nova fase.




terça-feira, 17 de março de 2015

Era uma vez um jacaré com dor de dente...

Era uma vez um grupo de crianças que gostava sempre de ouvir essa história.
Passamos o ano inteiro lendo e relendo histórias. Apresentando livros novos, repetindo as mais pedidas,  detalhando alguns personagens e entrando nessa magia que é o mundo inventado.


O livro campeão de público e crítica foi  O Pipo e a Poli. Primeiro porque Poli é o apelido de uma das crianças, e principalmente, porque o livro relata o cotidiano deles! Visita a casa do amigo, brincar de construir cidade e levar os bonecos pra passear, fazer xixi no chão no momento do desfralde, ser acolhido pelo amigo, tomar banho juntos...


Referências concretas no mundo inventado. Pertencimento.

Apresentamos também um livro sobre lendas brasileiras e elas seguem curiosas e querendo entender quem é o Boitatá, o Lobisomem (algumas mães contaram que tinham notado certos uivos pela casa...) e se identificando com as travessuras do Saci.

E ficaram mais felizes ainda quando descobriram que a musiquinha - sana que sana - cantada em espanhol quando um deles se machucava estava em um livro-cd!
Ouviram encantados e saltitantes. Um hit do dia a dia em som estereo!

Nesse livro também tem um apaixonante burrico que fica doente e precisa de vários cuidados cantados para que ele melhore. Uma cantoria errante e bela, orquestrada pelas pequenas colombianas/argentinas do nosso grupo.

E assim seguimos com eles nessa viagem que as letras, as cores e a imaginação proporcionam.













Um detalhe - Semana passada dei a cueca pro menino colocar. Ele foi até o quarto e daqui a pouco voltou gritando `mamãe, tenho um gorro vermelho igual ao saci! `
 Era a cueca na cabeça.




sexta-feira, 3 de outubro de 2014

"Nós também somos do mato como o pato e o leão"

Na nossa Casa não falta música. 
Em alguns momentos ouvimos uma vozinha, cantarolando em portunhol, músicas brasileiras que falam de pato, casa, sabiá, pintinho e outras alegrias do universo infantil. Em outros momentos colocamos um cd para tocar e saias para girar. 
Quando a alegria fica incontrolável aproveitamos para aumentar o volume e começamos a pular do sofá no chão, em cima das almofadas e em cima uns dos outros. 
Na hora de relaxar jogamos as almofadas no chão e cantamos "brancas, azuis, amarelas e pretas brilham na luz, as belas borboletas, borboletas..." 
E os livros que tem som?! Alegria garantida. 
Os sons em nossa casa geram movimento.


Observamos a relação de prazer que as crianças demonstravam em contato com o universo musical e  consideramos importante valorizar isso. Assim, convidamos 
Agustin Kammerath para ser nosso guia nesse caminho e fazemos encontros quinzenais onde as crianças se aproximam dos instrumentos, se concentram, dançam, cantam e aprendem a celebrar a música juntos.
Uma beleza!


A cada encontro percebemos a expectativa e o interesse aumentarem. No início competiam pela atenção do Agustin e  pelos instrumentos, agora já sabem como vai ser a dinâmica e aproveitam as canções e brincadeiras. 


Nosso desafio é trazer músicas além das temáticas infantis, mas também relacionadas a cultura popular das três nacionalidades presentes em nosso espaço: colombiana, argentina e brasileira (mistura boa essa!)
 Aos poucos vamos construindo com Agustin nosso enredo. 
Hoje teve Refazenda de Gilberto Gil, onde as crianças ficaram repetindo "nós também somos do mato como pato e o leão" e abrindo a boca imitando o leão rugir. Tivemos também "Manuelita" novidade do repertório argentino-colombiano.
Seguimos a nossa pesquisa e nossa alegria. Obrigada Agustin!